O que precisa ser verdade antes de adicionarmos IA a um app

Seu iPhone está cheio de coisas que você colocou ali. Receitas que você capturou de uma página web. Listas pela metade no Notas. Um PDF que alguém te mandou por e-mail. Uma foto de um treino escrito num quadro branco. Uma nota de voz em que você explica para si mesmo como fatura para um cliente. Já está ali. Você colocou ali porque é onde aquilo fica.

Então quando aparece um app novo que em tese poderia usar qualquer parte daquilo, a pergunta não é se o app é bom. A pergunta é se ele consegue ir te encontrar onde suas coisas já moram, ou se ele espera que você digite tudo de novo do zero. Um app que te faz redigitar uma receita que você já capturou, ou listar de novo os passos que você já escreveu no Notas, está te pedindo um trabalho que não tem nada a ver com o que você está de fato tentando fazer. Os dados estão ali. A barreira é o app.

É para isso que os recursos de IA realmente servem, quando servem para alguma coisa. Não para impressionar ninguém. Não para o texto de marketing. Para fechar a distância entre o que a pessoa já tem e o que o novo app precisa que aquilo seja.

Não falta recurso de IA entrando em app por aí agora. Muitos são bons. Muitos estão ali porque os investidores querem ver, ou porque o time tinha uma cota, ou porque todo mundo está fazendo e não ter um começou a parecer um problema. A gente é um estúdio pequeno. Não tem essas pressões, e não tem banda para construir recursos por qualquer outra razão que não seja ajudar. Então a gente escreveu o que um recurso de IA tem que ser, para entrar num app da Gums & Bones.

São três coisas, e todas são um não duro quando falham.

A primeira é que tem que ajudar a pessoa a fazer aquilo para o que o app é feito. O Patter existe para ajudar as pessoas a construir rotinas e deixar essas rotinas virarem hábitos. Um recurso de IA dentro do Patter tem que empurrar nessa direção — facilitar começar uma rotina, refinar uma, te desentalar diante da tela em branco. Deixar alguém entregar ao Patter uma página web, uma nota ou uma foto de uma lista e receber de volta um rascunho de rotina que dá para editar, isso encaixa. Um gerador que faz um ícone bonitinho para cada rotina não encaixaria. Não porque seja ruim. Está tudo bem. Só não tem nada a ver com o motivo pelo qual ninguém abre o Patter. Todo app que a gente faz tem um propósito, estreito o bastante para caber num cartão postal, e um recurso de IA ou serve a esse propósito ou não entra.

A segunda é que tem que caber no jeito como a gente já constrói. Nossos apps são compra única, sem assinatura, sem anúncios, sem conta, sem analytics, sem nuvem. Aparafusar em cima um recurso de IA que quebrasse silenciosamente qualquer um desses pontos teria desfeito o resto do estúdio. Então o recurso tem que funcionar dentro dessas restrições: no aparelho da pessoa, pago pela gente e não por ela, sem telemetria voltando.

A terceira é que a pessoa tem que estar em controle completo. A IA nunca roda em segundo plano. Ela nunca lê nada que a pessoa não tenha entregado explicitamente. Ela nunca processa em silêncio o conteúdo da pessoa para ser “útil”. Ela roda quando a pessoa manda rodar, sobre o conteúdo que a pessoa dá, e o resultado é mostrado para a pessoa antes que qualquer coisa seja salva. Não tem versão meio termo disso. Ou a pessoa está no volante toda vez, ou a gente não constrói o recurso. Um sumarizador que lesse em silêncio suas notas em segundo plano para fazer surgir “insights” não passaria, por mais úteis que esses insights acabassem sendo. Você nunca vai ficar se perguntando se nossos apps rodaram um modelo nos seus dados sem te avisar. A resposta é não.

E o que quer que a IA produza é um rascunho para a pessoa olhar, não uma mudança em algo que ela já tinha. A gente não reescreve o conteúdo da pessoa. A foto, a nota, a captura de tela, o PDF — o que você entregou para o app fica exatamente como estava. O que sai da IA é uma coisa separada, ao lado do original, para você ficar ou jogar fora.

Esses são os três. Propósito, encaixe, controle. A maioria das ideias de recurso de IA — incluindo a maioria das nossas — não passa nos três, e esse é o sentido inteiro de tê-los escrito. A lista existe para dizer não.

Tem uma quarta coisa que não é critério mas conta tanto quanto os critérios. Qual IA um recurso usa é em si uma decisão de design. Por enquanto, o modelo da Apple no aparelho é a única opção que a gente conhece que deixa cumprir as três regras de cima sem uma lista longa de concessões. Roda no aparelho da pessoa, não custa nada para a gente usar, não vê o que processa, e a Apple não está tentando empurrar para ninguém um nível de assinatura por cima. Também tem acesso direto — com a permissão da pessoa — às coisas que já estão no celular, que é a razão inteira pela qual qualquer coisa disso vale a pena. Se isso mudar algum dia, ou se aparecer uma opção melhor que cumpra a mesma régua, a gente reconsidera. A gente não é leal a um modelo. A gente é leal às regras.

Uma pergunta razoável a essa altura é: por que se dar ao trabalho de escrever isso? A maioria dos estúdios do nosso tamanho não publica uma posição sobre IA. A resposta honesta é que a gente vai estar tomando essas decisões por conta própria, com frequência, rápido, por um bom tempo. Colocar as regras no papel é principalmente para a gente. Significa que da próxima vez que a gente for tentada a construir alguma coisa porque ela daria boa demo ou porque todo mundo lançou, tem um texto que a gente precisa olhar antes. Os critérios dizem não por nós, então a gente não tem que fazer isso do zero toda vez.

Você está convidado a cobrar a gente disso.